Uma Usina: Os controles e a tecnologia

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UMA USINA

Fevereiro de 2001. Depois de passar o réveillon do milênio atento ao comportamento da quinta unidade geradora da Usina Hidrelétrica Itá, o grupo de comissionamento concluiu uma imensa bateria de testes e ensaios nas máquinas e liberou a unidade para operação comercial. Com ela todo o projeto da usina está pronto: Itá tem capacidade para gerar 1.450 megawatts em sua carga máxima, sendo 668 megawatts médios de energia garantida, uma referência mundial em termos de tecnologia, de segurança e de relacionamento social e ambiental. Conectada ao sistema elétrico interligado Sul/ Sudeste/Centro-Oeste do Brasil, Itá dá um ovo
fôlego ao parque gerador brasileiro – carente de oferta imediata de eletricidade – para sustentar o crescimento do país. Além disso, a localização da usina é estratégica. Em 2000, o consumo de energia no Rio Grande do Sul, uma das pontas do sistema interligado, cresceu 7,5% em relação ao ano anterior, 20% a mais do que o planejado. Uma fonte geradora nesta posição é fundamental para minimizar os riscos de eventuais dificuldades
no abastecimento de energia.

Mais do que uma usina, Itá cristaliza o modelo de desestatização do setor elétrico brasileiro, no qual a iniciativa privada está à frente dos projetos e o Estado passa a exercer as funções de regulação e fiscalização. A usina também não se limitará a enriquecer o país com energia. As movimentações tecnológica, ambiental e fiscal geradas seguem beneficiando toda a região onde ela está instalada. A operação e a manutenção demandam alto nível de tecnologia embarcada, capacidade de previsão e planejamento. Cada giro da turbina garante recursos aos 11 municípios que abrigam o lago e aos Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Somente os royalties a título de compensação financeira pela exploração de recursos hídricos devem render aos
municípios cerca de 6 milhões de reais por ano, constituindo-se em uma das mais importantes fontes de arrecadação. O recolhimento de ICMS soma outros 600 mil reais por mês, dos quais boa parte retorna para a região. Para garantir o equilíbrio ambiental e disciplinar a exploração do reservatório e seu entorno, as medidas de controle ambiental vêm sendo rigorosamente executadas, de acordo com os critérios e cronogramas
aprovados pelos órgãos ambientais. Estão em curso ações que abrangem desde o monitoramento da qualidade da água até propostas para a exploração das potencialidades turísticas do reservatório.

Uma usina hidrelétrica pode ser vista como uma indústria de transformação, onde a matériaprima – a água – produz energia elétrica, o produto final. As atividades desta fábrica se assemelham em vários aspectos às de uma indústria comum, mas são as diferenças impostas pelas condições climáticas e físicas que a tornam um
negócio tão peculiar. O que se poderia chamar de estoque de matéria-prima – o nível do reservatório – deve ser otimizado de maneira a suprir as necessidades da usina, sem entretanto esquecer dos reservatórios de outras usinas localizadas a jusante, que podem depender da vazão do rio para a formação de seus próprios reservatórios. E, evidentemente, considerando as necessidades do rio Uruguai, que não pode deixar de
contar com uma vazão normal.

Itá tem capacidade para gerar 1.450 MW
em sua carga máxima, sendo 668 MW médios
de energia garantida.

Vertedouro 1

Vertedouro 1

Todo este controle acaba resultando em um processo extremamente positivo para a região: ao regular a vazão do rio, a operação minimiza a ocorrência de grandes enchentes ou cheias. Por outro lado, as cinco unidades geradoras, formadas pelo conjunto de turbinas e geradores, são as máquinas da fábrica.
Elas são gerenciadas através de um moderno sistema digital de operação e de um cuidadoso método de manutenção, que planejam com grande antecedência todas as paradas necessárias para a troca de peças ou reparos. Todo o conjunto formado pelo reservatório, casa de força, subestação, vertedouros, tomada d´água, túneis forçados, barragem e diques é rigidamente controlado, para que funcione como um relógio.

As palavras que melhor definem a incumbência dos funcionários que operam a usina em seu dia-a-dia são disponibilidade e confiabilidade, além de segurança. As máquinas e o reservatório devem estar prontos para
gerar quando o mercado requerer energia. As máquinas devem parar apenas quando a geração a plena carga não for possível, seja por um motivo incontornável de falta de capacidade do reservatório ou de demanda do sistema elétrico nacional. O esquema de segurança, por seu lado, concentra as principais atenções na barragem, que é monitorada considerando-se um grande número de variáveis físicas, como a sua dilatação
e até mesmo a eventual ocorrência de tremores de terra. A manutenção do equilíbrio de todo o complexo é semelhante a um jogo de xadrez, que exige um rigoroso acompanhamento e antecipação das condições climáticas, conjugado a um acompanhamento em tempo real da temperatura, vibração, pressão, vazão e deslocamento das principais estruturas civis e peças mecânicas da casa de força, além das variáveis elétricas que determinam a qualidade da energia que sai de Itá.

Um dos principais aliados do perfeito funcionamento da usina é um sistema de controle totalmente computadorizado, que absorve e processa milhares de informações. Ele não só auxilia na tomada de decisões como pode tomá-las sozinho até determinados níveis. Chamado de Sistema de Controle e Supervisão Digital (SCSD), ele supervisiona digitalmente 5.337 pontos, e analogicamente outros 745. Assim, por exemplo, a mínima variação do nível do reservatório é registrada por sensores. Cada comporta pesa mais de 600 toneladas e suporta uma pressão muito grande, cujos movimentos são realizados por um imenso braço hidráulico. Graças ao sistema, a usina inteira necessita de apenas dois operadores por turno. Ao invés daqueles enormes
painéis analógicos, na proporção de um para cada máquina, o SCSD é acessado através de telas de computador. Nas estações de trabalho, pode-se navegar por cada uma das 400 telas e através delas acompanhar e comandar cada detalhe da usina.

Para facilitar o trabalho da manutenção, o sistema dispõe de um grande banco de dados com o histórico detalhado de cada pequena ocorrência na usina. A manutenção, por seu lado, tem sua filosofia baseada na conjugação de dois métodos: manutenção preventiva e manutenção preditiva. Cabe à manutenção preventiva interferir para evitar o surgimento de problemas, enquanto a função preditiva busca prever com exatidão quando os problemas vão aparecer, e assim encontrar o momento mais adequado para a manutenção.
Tudo isso, evidentemente, tem que estar em perfeita sintonia com as necessidades comerciais do empreendimento. Uma vez a cada seis meses há uma parada prevista de dois dias para cada uma das máquinas.

É inegável que a Usina Hidrelétrica Itá mexeu profundamente com a região do Alto Uruguai, tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico e social. A alteração dos ecossistemas terrestres, incluindo flora e
fauna, tende a causar transformações no ambiente ribeirinho, propiciando a proliferação de alguns espécimes, em detrimento de outros. Os programas do EIA-Rima têm por objetivo monitorar, compensar ou minimizar estes efeitos.