Uma Obra: Os túneis e a grande cheia

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UMA OBRA

Com os túneis de desvio prontos, no dia 24 de setembro de 1997, os caminhões fora-de-estrada e tratores pesados da Companhia Brasileira de Projetos e Obras (CBPO), a empresa responsável pela execução
das obras civis da usina, começaram o estrangulamento do rio com toneladas de rocha. Em apenas 16 horas formou-se o primeiro cordão ligando as duas margens. Lentamente o desvio se caracterizava e o rio Uruguai era domado.

Em seguida, a ensecadeira começou a ser construída na parte central do leito, concluindo o desvio. Foi então que o inesperado – o principal fantasma que ronda uma obra desta magnitude – deu o ar de sua graça e quase pôs tudo a perder.

Uma grande cheia naqueles dias evidenciou a característica mais marcante do rio Uruguai: a rapidez com que ele sobe e desce. A vazão pulou de 600 metros cúbicos por segundo – equivalente a quase dez vezes o consumo de água de São Paulo – para 18 mil metros cúbicos por segundo. Era ano de El Niño, e aquela foi a maior cheia jamais registrada em outubro na história do rio Uruguai. Em função disso, como as previsões meteorológicas indicavam chuvas intensas, todo o plano e método executivo foram alterados,numa desafiadora corrida entre a altura da ensecadeira e o nível do rio. Era preciso desenvolver soluções criativas para fazer a ensecadeira ganhar mais altura por hora trabalhada do que o aumento do nível do rio. E naquele momento o
rio subia a uma velocidade superior a 1 metro por hora. Àquela altura, a vedação com argila das camadas de rocha da ensecadeira não estava pronta e não poderia ser concluída com esta técnica devido à saturação do solo pela água. Com isso, a infiltração pelo corpo da ensecaderia era muito grande. Para vedá-la, os técnicos utilizaram vários artifícios: lançaram camadas de material rochoso fino, argila e lonas plásticas para montante,
e blocos de rocha com mais de um metro de diâmetro a jusante, para fazer peso e repor o material arrastado pela infiltração. Apesar da sinergia que reinava entre os técnicos de todas as empresas envolvidas, o cansaço era marcante. No dia 12 de outubro, muitos técnicos completaram 48 horas sem dormir quando aconteceu o
pico da cheia. O rio chegou a 43 metros de altura e a montanha de rocha e solo tinha naquele momento 48 metros. Mas as previsões para o dia 13 eram que a água atingiria 50 metros. No dia seguinte, porém, o furioso Uruguai começou a se acalmar, a água subiu pouco e o nível se estabilizou em 43,20 metros.

O pior, entretanto, era a expectativa de que a ensecadeira fosse galgada pela água. Neste caso, o cenário era desolador. A força da água iria corroer rapidamente a estrutura da ensecadeira, que seria completamente arrasada. Uma enorme onda iria se formar atingindo a barragem principal e a ponte de serviço, construídas
um pouco mais abaixo. Uma imensa área ficaria alagada e centenas de propriedades destruídas. Para evitar
uma tragédia a população ribeirinha foi retirada e instalada em salões paroquiais. Os animais foram conduzidos para terras altas. Emissoras locais de rádio e televisão davam boletins a todo minuto. A defesa civil das cidades de Aratiba e Itá e dos Estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul estavam de prontidão.

Caso a catástrofe se consumasse, além dos prejuízos materiais e sociais incalculáveis para a região, a obra estaria seriamente comprometida. Ela sofreria um atraso de pelo menos um ano. O orçamento estouraria e com ele o sonho de se concluir um projeto que deu seus primeiros passos nos anos 60. Esta obra
enfrentou toda a sorte de percalços e acabou se viabilizando através de uma engenharia política e financeira sem paralelo na história da geração de energia elétrica em terras brasileiras. Os momentos mais tensos exigiram decisões extremamente corajosas. Uma transmissão de rádio da equipe de campo chegou a anunciar que a ensecadeira iria se romper, justamente quando técnicos e gerentes estavam reunidos para comunicar à população a decisão de retirar o pessoal e mais de 50 equipamentos da frente de trabalho, pois havia risco de vida. Mas uma nova análise, no local, levou à decisão corajosa de continuar o erguimento e o reforço da ensecadeira. Caso isso não tivesse acontecido, o rompimento teria sido inevitável.

O rio, no dia da grande cheia.

 
O rio, no dia da grande cheia.

O episódio é ilustrativo do universo e do ambiente que envolveram a obra da Usina Hidrelétrica Itá. Proporções gigantescas, planejamento meticuloso, a força da natureza se contrapondo a toda a tecnologia e conhecimento
acumulados ao longo de décadas de experiência em construção de usinas hidrelétricas. No canteiro de obras de Itá, nenhum dia foi igual a outro.