Uma Obra: A Tecnologia.

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UMA OBRA

A abertura dos cinco túneis forçados, aqueles que têm por finalidade conduzir a água do reservatório até as turbinas,é um dos momentos mais perigosos de toda a imensa variedade de obras civis da usina. Os túneis são escavados em rocha. A entrada, na captação de água, é horizontal. Em seguida, há uma
curvatura para baixo e se inicia a grande seção vertical, numa queda de 90 metros, até um novo trecho horizontal, que termina numa estrutura em caracol, o abrigo da turbina. Cada túnel tem 197 metros de comprimento e oito metros de diâmetro. Pelos métodos convencionais, a aberturaé iniciada pela parte horizontal, embaixo. São feitos furos na rocha para a colocação de explosivos. Depois do fogo, uma equipe entra no túnel, dentro de uma espécie de gaiola, e com picaretas retira os pedaços de rocha choca,
aquela que devido à explosão fica descolada do restante da estrutura rochosa. O perigo é quando se chega ao trecho vertical. A rocha choca invariavelmente cai em cima da gaiola. Quando o pedaço é grande demais, se constitui numa das principais causas de morte de trabalhadores numa obra de usina hidrelétrica.

O uso pioneiro no Brasil de um equipamento chamado raise boring machine, mantido ao longo de seis meses na obra por uma empresa norte-americana, resolveu o problema. O aparelho começa a perfuração por cima, fazendo um furo reto, tangenciando a curvatura do túnel, até chegar ao local da sua boca, embaixo. As brocas
vão sendo emendadas até que se atinja o objetivo. Assim é feito um furo com diâmetro de quatro polegadas. Ao chegar na outra extremidade, na ponta da broca abre-se uma cabeça com coroas, e inicia-se o movimento contrário. O diâmetro do buraco é alargado para três metros, formando um túnel guia, com as paredes internas
rigorosamente lisas. Terminado este serviço, o formato final do túnel começa a ser constituído a partir de explosões iniciadas pela parte de cima. Assim, quando os operários golpeam a rocha a picaretas para soltar a parte choca, evitam o perigo. Toda a rocha que se descola vai direto para baixo, e é tranqüilamente recolhida
na boca inferior do túnel guia.

Se o uso de sofisticados equipamentos importados conferiu agilidade e segurança à obra, o engenho do corpo técnico brasileiro proporcionou um ganho inestimável de tempo e dinheiro numa importante etapa da construção da barragem principal. Ela é formada por grandes rochas cuidadosamente empilhadas,
até a altura de 125 metros, numa extensão de 880 metros. A base da barragem tem uma largura de 400 metros. Este processo consome 8 milhões de toneladas de rocha, cerca de 90% de toda a rocha escavada no canteiro de obras, retirada de túneis e dos locais da casa de força e dos vertedouros. Na face da barragem que fica em contato com a água, as rochas vão diminuindo de tamanho nas várias camadas colocadas, até se chegar a uma grossa camada de brita, em cima da qual se constrói a imensa laje de concreto, que consumiu 50 mil metros cúbicos de material, suficiente para a construção de 40 prédios de 20 andares cada. O maior problema era o assentamento da brita, na face impermeabilizada antes da laje de concreto.

Os túneis forçados são escavados em
rocha. Cada um tem 197 metros
de comprimento e oito metros de diâmetro.

Construção da barragem.

Construção da barragem.

Ali mesmo, no canteiro de obras, descobriu-se um verdadeiro ovo de Colombo. Com uma fôrma específica, foram produzidos milhares de pequenos blocos de concreto extrusado, semelhantes a guias de calçada, em forma de trapézio. Com 40 centímetros de altura, eles serviram de anteparo para a camada de brita que é colocada antes da face de concreto. Na fase seguinte, outro bloco era colocado em cima do anterior,
acompanhando a angulação da parede da barragem. Nova carga de brita e novo trabalho de assentamento, em toda a extensão horizontal da barragem e até chegar próximo à crista. Feito o trabalho, a face externa dos blocos de concreto formou uma superfície lisa e sem reentrâncias, ideal para receber o revestimento de concreto. A metodologia acabou se tornando objeto de publicações técnicas, já utilizada em obras na China e na África. Ficou conhecida como Método de Itá.

No conjunto, a Usina Hidrelétrica Itá entrou para a história do setor elétrico brasileiro graças a uma série de fatos novos que permearam todo o período de seu planejamento e construção. Foi o primeiro aproveitamento hidrelétrico do rio Uruguai, a primeira aplicação da legislação que permitiu a parceria entre os setores público e privado para a conclusão de uma obra de geração hidráulica, o primeiro contrato turn-key firmado com os fornecedores para obras dessa natureza. Por fim, foi marcada pela privatização do setor de geração de energia elétrica. Em dezembro de 1997, a Eletrosul foi cindida. Constituiu-se a empresa Gerasul para a geração, enquanto coube à Eletrosul o setor de transmissão. Em setembro de 1998, a Gerasul foi privatizada. O grupo belga Tractebel adquiriu, por 801 milhões de dólares, 68,63% de sua estrutura acionária e passou a administrar três usinas hidrelétricas, o complexo termelétrico de Jorge Lacerda e outras duas usinas termelétricas, além de três usinas em fase de construção. Entre elas, Itá.

Disposto a investir pesado no Brasil, o Grupo Tractebel daria ainda um outro importante passo que alterou novamente a constituição acionária da Usina Hidrelétrica Itá. Detentor de 39% do capital, a parte que anteriormente à privatização era estatal, a Gerasul adquiriu a parte de um dos membros da Itasa, o consórcio
privado que detinha até então os outros 61% da usina. A compra foi concluída em junho de 2000 e envolveu os 48,75% do capital votante e 25,8% do capital da Odebrecht Química. Desta forma, a Gerasul passou a controlar cerca de 70% do empreendimento, tendo assim direito à parcela equivalente da energia gerada.
A participação em Itá agrega cerca de 1.000 megawatts ao parque gerador da Gerasul, que até 1999 somava uma capacidade instalada de 3.700 megawatts.

 

Outro fato que colocou a Hidrelétrica Itá na história do setor elétrico nacional foi a solução para o grave problema da baixa vazão do rio, após o fechamento dos túneis de desvio para iniciar a formação do lago.
Os estudos sobre a hidrologia da região apontaram a época mais adequada para se realizar o fechamento. Deveria ser um período seco, de baixa vazão, para que fosse mínima a quantidade de água passando pelos dois túneis construídos em cota inferior. Primeiro seriam fechados com concreto os três túneis superiores, que estariam livres das águas. Por fim, os túneis inferiores seriam fechados com o baixamento de comportas,
e mais tarde seriam concretados os seus plugs. Toda essa rara obra de engenharia consumiria mais de 10 mil metros cúbicos de concreto que nunca mais seriam vistos ou teriam utilidade. Havia entretanto um grave problema. Ao se fecharem os túneis, haveria um tempo grande de carência para que o reservatório enchesse. Só então o excesso de água seria escoado pelos vertedouros, alimentando novamente o leito do rio. Nesse meio tempo o leito ficaria seco, causando um impacto ambiental gravíssimo. A vida a jusante da barragem praticamente desapareceria. A solução encontrada para garantir uma vazão mínima a jusante foi a construção
de um sistema chamado dessecador de fundo. No interior de um dos túneis construiu-se uma estrutura de concreto que o fechava, só que no interior dessa estrutura havia outro pequeno túnel blindado com duas comportas. Por ele é que passava uma vazão de cerca de 80 metros cúbicos por segundo, suficiente para manter o leito do rio alimentado até que os vertedouros entrassem em ação.

Neste momento, o equipamento poderia ser fechado e o túnel lacrado. Assim foi feito. De um túnel vizinho foi construído o acesso para o túnel com o descarregador. Aberto, o fluxo de água jorrou a uma distância de 30 metros, sem controle, chegando a 140 quilômetros por hora. Dentro do túnel, através da abertura de acesso, o vento encanado soprou a 96 quilômetros por hora, arrancando capacetes e crachás dos técnicos que acompanharam o procedimento.

A decisão pelo fechamento das comportas principais do penúltimo túnel, anterior ao fechamento do dessecador de fundo, envolveu a discussão de 40 pessoas para a decisão do momento adequado. Na virada do dia 15 para o dia 16 de dezembro de 1999, a natureza foi solidária, e o nível da água ajudou na decisão. Por volta das quatro horas da manhã, as comportas começaram a descer, com o auxílio de guindastes. Vários mergulhadores participaram da operação, a postos para o caso de algum entulho ou vegetação ficar presa pelas comportas, impedindo o fechamento completo do túnel. A tensão era muito grande, e a conclusão da operação com sucesso causou grande comoção. Muitos barrageiros choraram neste dia. Meses mais tarde, em 8 de março de 2000, o fechamento do dessecador de fundo concluiu o fechamento do desvio do rio Uruguai. O imenso lago ganhou forma, e pôde assim abastecer deágua a primeira turbina, que girou pela primeira vez no fim de maio. O sonho há décadas represado se transformara em energia.