Uma Obra: Marco Histórico.

Imagine
UMA OBRA

No dia 15 de junho de 2000, a primeira das cinco máquinas de Itá girou, em fase pré-operacional. Alguns dias mais tarde entrou em geração comercial, dentro do prazo estipulado pelo contrato. A segunda unidade geradora entregou energia para o sistema em 28 de agosto de 2000, um mês antes do que estipulava o contrato. A última das unidades deveria entrar em operação comercial no final de setembro de 2001, mas o ritmo acelerado das obras vai permitir que o trabalho seja concluído em fevereiro. Quando chegar este dia, estará pronta a usina cuja obra ficou praticamente parada por quase 15 anos. Seu custo terá sido de cerca de 1.000 dólares para cada megawatt hora gerado, um preço internacionalmente atraente, enquanto no Brasil o custo da geração hidráulica é pelo menos 40% maior. Colocar cinco máquinas em operação em um prazo inferior a cinco anos é um recorde em terras brasileiras. A metodologia adotada para a conclusão de Itá foi desafiadora sob todos os aspectos, mas muito bem-sucedida. E está servindo de modelo para várias outras obras de porte semelhante que estão sendo realizadas no Brasil e no exterior.

Até então, nenhuma usina hidrelétrica brasileira
havia sido construída com um contrato do tipo preço e
prazo fechados.

Túneis de desvio.

Túneis de desvio.

Mas nem só de trabalho viveu um canteiro de obras movimentado como o da Usina Hidrelétrica Itá. Afinal de contas, foram quatro anos de convívio, num ambiente que superou em número de pessoas a própria população da cidade de Itá. No canteiro tinha loja “1,99”, farmácia, mercearia, padaria e central telefônica. A comida, com carne à vontade, dimensionada para ajudar os trabalhadores a enfrentar longas jornadas debaixo de frio, chuva ou sol intenso, teve um índice de aprovação superior a 80%. Os operários que viveram na obra, utilizando os alojamentos dentro do próprio canteiro, contaram com uma estrutura de lazer invejável, e puderam assistir a espetáculos como campeonatos de futebol feminino, nos quais se enfrentaram
as seleções das cidades próximas. O centro de lazer montado tinha 12 mesas de sinuca e espaço para outros jogos, como pebolim, baralho e dominó. Uma sala com telão e videokê revelou muitos talentos artísticos. O espaço para esportes incluiu quadras poliesportivas, para a prática de futebol suíço, futebol de salão, vôlei,
tênis e basquete. A fé foi suprida com a realização periódica de missas católicas e cultos evangélicos. Os que moravam longe puderam matar as saudades da família, pois um banco de horas foi montado para que a cada quatro meses os trabalhadores pudessem tirar folgas e viajar. Muitos encontraram no convívio da própria obra e nas cidades ao redor a sua cara-metade. Itá rendeu vários casamentos.

A principal novidade que os barrageiros encontraram em Itá foi a liberação da cerveja no bar do canteiro de obras. Até então o consumo de bebidas alcoólicas era proibido em obras deste tipo. A liberação, entretanto, foi uma experiência bem-sucedida para contornar justamente o problema com o álcool. Nas obras, é comum o contrabando de aguardente, lançando- se mão dos métodos mais inusitados. Equipamentos com mangueira de nível são violados para a substituição do líquido por cachaça. Operários cruzam a portaria com melancias
debaixo do braço, escondendo aguardente em seu interior. A entrada do líquido proibido também costuma ser feita pelo rio, longe da guarita do canteiro. Ou ainda dentro de garrafas térmicas. As empresas envolvidas no projeto resolveram liberar a cerveja acreditando que o consumo de uma bebida mais fraca aplacaria a sede por cachaça, causando assim menos problemas. A preocupação com segurança foi mais além. No recrutamento de pessoal, um acordo com as polícias civil e militar permitiu a checagem de todos os candidatos. O conjunto de medidas deu certo. A seleção de pessoal foi importante para evitar problemas previstos no projeto original e que ocorreram em outras obras no passado.

Nenhuma ocorrência policial grave foi registrada no
canteiro de obras ou na cidade de Itá. A seleção
de pessoal dispensou a construção de uma delegacia e
uma prisão, que estavam previstas no projeto original.

Muitos aproveitaram a estadia em Itá para estudar. Um convênio firmado com o Sesi e a prefeitura de Aratiba, que cederam material e professores, permitiu a montagem de um curso supletivo de 1o grau para os operários. Setenta e oito pessoas se diplomaram no canteiro de obras. Maior alcance ainda tiveram os serviços de assistência médica e odontológica. O objetivo não era simplesmente atender
ocorrências na obra. A área odontológica estava preparada para realizar qualquer tipo de tratamento,
e o fez num ritmo de 30 atendimentos por dia. Além disto, foram realizadas várias campanhas de prevenção às cáries, com a distribuição de flúor e escovas de dentes. Para o atendimento médico foi firmado um convênio com uma empresa, que previa atendimento global, incluindo toda a família do segurado. Foram desenvolvidos
vários programas pioneiros, como o de ergonomia e o da prevenção de perdas auditivas. Ao longo do ano 2000 não foi registrado nenhum caso de Dorte – sigla de doença ósseomuscular relacionada ao trabalho.

Na área tecnológica, a obra apresentou uma série de novidades. Circularam pelo canteiro alguns dos mais modernos equipamentos disponíveis para construção civil e montagem de equipamentos eletromecânicos. Caminhões com os dois eixos móveis permitiram manobras em espaços exíguos. Vários tratores e guindastes com ar-condicionado foram utilizados. O equipamento mais caro era um guindaste computadorizado de
1,5 milhão de dólares. Se a sua carga de até 200 toneladas atingisse uma angulação diferente da programada, o equipamento ativava um recurso de travamento automático, garantindo a segurança da operação. Jumbos hidráulicos foram utilizados para a escavação dos túneis de desvio. Mas duas das inovações tecnológicas que mais marcaram foram um equipamento de perfuração de túneis forçados e uma solução doméstica que revolucionou a construção da face de barragens em todo o mundo.