Uma Nova Vida: Salvamemento histórico

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UMA NOVA VIDA

Ainda em relação ao patrimônio arquitetônico, em julho de 1994 começou a ser realizado um inventário das edificações em toda a região atingida pelo reservatório. O material cadastrado se mostrou bastante significativo, seja pela quantidade – 230 imóveis–, seja pela qualidade e valor arquitetônicos. Todas
estas construções foram fotografadas e surpreendem pela engenhosidade construtiva, beleza da volumetria, detalhes e adornos, combinação das cores dos elementos arquitetônicos e pela vegetação dos jardins e pomares. O material produzido foi organizado em fascículos, um para cada município, o inventário foi publicado
em quatro volumes, colocados à disposição de escolas, universidades, profissionais de arquitetura e de outras áreas do conhecimento.

Um dos projetos mais significativos do Arca de Noé foi o Elementos Culturais do Alto Uruguai (Ecau), desenvolvido através de uma parceria com a Universidade de Caxias do Sul (RS). O objetivo foi registrar, sonora e visualmente, as atividades dos moradores das comunidades atingidas, como técnicas agrícolas, hábitos, costumes e manifestações culturais e artísticas. Iniciado em março de 1997, os trabalhos do Ecau tiveram duração de 14 meses, registrando os eventos importantes que ocorreram nos diferentes meses e estações do ano – plantio, colheita, festas populares e religiosas, etc. Deste trabalho resultou uma série de desdobramentos, como 80 entrevistas com pessoas idosas, formando um extenso arquivo com a memória oral da região, hoje disponível a todos os interessados. Também foi montado um arquivo com mais de 500 fotografias de caráter antropológico que registraram diversos momentos da vida desta população. O vídeo Um rio e muitas vidas, com duração de 15 minutos sobre os elementos históricos e culturais do Alto Uruguai, foi produzido dentro do projeto, assim como o texto O vale submerso, que conta aspectos da história da região, como a ocupação das terras pelos colonizadores descendentes de europeus. O objetivo de apresentar uma
síntese das diferentes heranças culturais da região, as representações simbólicas da cada etnia e o modo de vida da população, foi alcançado, formando um acervo de imenso valor para outros trabalhos de resgate da memória do Alto Uruguai.

Além do Arca de Noé, outro dos 23 programas desenvolvidos em virtude da construção da usina tem relação direta com a história da região: o de Salvamento do Patrimônio Arqueológico. O objetivo deste programa foi localizar e explorar os sítios arqueológicos da área que seria inundada pela formação do lago, dando subsídios para estudos sobre as ocupações humanas pré-históricas da região. Foram recolhidas centenas de peças que mostram a evolução dos povos que passaram ou se fixaram por determinados períodos no Alto Uruguai. Uma amostra deste acervo ficará sob a guarda do Centro de Divulgação Ambiental em Itá, acessível a pesquisadores, estudantes e ao público em geral.

Uma obra como Itá implica em um grande impacto no meio ambiente da região atingida. Por isto dezenas
de programas foram desenvolvidos especificamente para minimizar ou compensar os efeitos ambientais causados pela construção da usina. Entre eles, a recomposição de áreas degradadas, manejo e conservação da fauna e flora, monitorização do clima e do rio, e ações de educação ambiental. A atenção se voltou desde os
taludes marginais até o desmatamento e limpeza da área a ser inundada.

Marcelino Ramos, às margens do reservatório.

 
Marcelino Ramos, às margens do reservatório.

No que se refere à fauna e à flora, os programas envolveram aspectos como a formação da faixa ciliar de proteção, compreendendo 30 metros acima das margens do lago. Neste sentido, foi demarcada uma faixa de 2.159 hectares, que está sendo reflorestada com mudas de árvores da região ou preservada com
a vegetação nativa. Outra ação para a preservação da flora e da fauna foi a implantação de duas Unidades
de Conservação. A primeira delas fica em Santa Catarina, na localidade de Barra do Queimados, em Concórdia, e é composta por uma área de 735 hectares. A outra está no Rio Grande do Sul, em Marcelino Ramos, com
área de 461 hectares. Na unidade de Concórdia, foi criado o Centro de Apoioà Pesquisa (Ceapa), que vai servir como uma unidade de pesquisa e conservação de todo o ecossistema do Alto Uruguai. Amplos estudos sobre a fauna e a flora também foram realizados, proporcionando um conhecimento inédito sobre a vida em toda a região. No caso da flora, foram coletados mais de 252 quilos de sementes, sendo que 96 já foram semeados e boa parte se encontra estocada. Este material propiciou um conhecimento aprofundado da cobertura vegetal,
além de possibilitar a reprodução de espécies ameaçadas de extinção. Da mesma forma, desenvolveu-se um trabalho intenso de monitorização e manejo da ictiofauna, visando a manutenção e reprodução das espécies de peixes que povoam a bacia do Uruguai.

Também houve uma preocupação em formar nos futuros cidadãos uma consciência social e ecológica voltada para a preservação ambiental. Dentro dos programas de educação ambiental, salienta-se a implantação do
Centro de Divulgação Ambiental do Alto Uruguai, localizado em Itá, que terá a função de desenvolver
estudos e trabalhos, contribuindo para uma compreensão das formas de relacionamento entre o homem e a natureza e sua dinâmica no processo de transformação do meio ambiente. Ainda na área educacional,
convênios assinados com as universidades de Erechim e Concórdia estão possibilitando a capacitação de professores de toda a região.

Até a operação integral da Usina Itá foram quase 20 anos de trabalhos, ações e programas voltados tanto para recompor a área afetada e preparar a região para a nova realidade. O objetivo que norteou todos os
projetos desenvolvidos sempre foi o de potencializar os efeitos positivos da obra, tentando diminuir os impactos causados pelo reservatório, mesmo sabendo que algumas perdas seriam inevitáveis. Toda a população atingida passou por experiências jamais imaginadas, nas quais a palavra-chave foi o “novo”, seja em relação às pessoas que tiveram que mudar do local onde viviam para novas áreas, seja em relação à nova estrutura geofísica determinada pelo reservatório. Enfim, para todo o Alto Uruguai, a implantação da Usina Itá se constituiu
em desafios e oportunidades, significando acima de tudo uma vida nova.

Torres da igreja da
Torres da igreja da cidade submersa, Itá.