Uma Nova Vida: Retomada das Obras

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UMA NOVA VIDA

As obras foram retomadas com maior intensidade nos primeiros anos da década de 90, dando condições para que o restante da cidade fosse transferido. Por volta de 1995, quase um ano antes das primeiras máquinas
desembarcarem no canteiro de obras para a retomada da construção da usina, todos os moradores já haviam se mudado, e a cidade velha, abandonada. Em 1o de janeiro de 1994, foi rezada a última missa na Paróquia de São Pedro, a igreja que depois da inundação do reservatório ficaria com as torres para fora da água, numa
lembrança da cidade que ficou sob o lago formado pela Usina Itá. As solenidades efetuadas em 1996, inaugurando a cidade nova, apenas oficializaram a existência da nova Itá.

Hoje, quem chega em Itá se surpreende.Primeiro pela aparência da cidade, arborizada e bem-conservada. Depois pela solução arquitetônica, que atingiu um interessante equilíbrio entre o tradicional e o contemporâneo, numa releitura das formas construídas pelos colonizadores de Itá. Com uma vista privilegiada para o lago da usina, a estrutura urbana é linear, um eixo viário atravessa a cidade e canaliza os fluxos mais intensos de veículos e pedestres. No centro geométrico fica a praça, onde está uma escultura que utiliza elementos simbólicos do lugar: uma pedra e dois troncos de sassafrás. Próximos à praça estão os prédios da prefeitura, do clube Cruzeiro, do ginásio de esportes, da igreja, a galeria comercial e a rodoviária. A cidade possui infra-estrutura completa, com rede de água, energia elétrica, telefonia, drenagem e rede de esgotos com tratamento de efluentes através de filtros anaeróbicos. O espaço urbano é arborizado com espécies nativas e exóticas. São mais de 300 espécies, incluindo árvores em extinção, orquídeas e bromélias que embelezam as ruas e praças da nova cidade.

Hotel e Churrascaria Aratiba.

 
Hotel e Churrascaria Aratiba.

A última homenagem à cidade velha ocorreu em abril de 2000, pouco antes da área ser inundada pelo reservatório. Ao pé das torres da Igreja São Pedro, a única construção mantida por desejo da comunidade, foi rezada uma missa especial, seguida de uma série de atividades no evento denominado “Adeus
à cidade velha”. Se pequenas mudanças na vida das pessoas representam momentos de rompimento de relações com o ambiente, mudar uma cidade inteira tem dimensões muito maiores. Há várias outras relocações de núcleos urbanos no Brasil, muitas delas em situações similares devido a construções de hidrelétricas, mas para os moradores de Itá, com certeza, essa foi uma experiência única, inevitável, e que anunciou uma nova era para toda a população.

Paralelamente a este processo, outro capítulo longo, e algumas vezes tenso, que envolveu a construção da usina foi o reassentamento dos moradores das zonas rurais dos 11 municípios atingidos pela barragem.

Após a divulgação do projeto que propunha o aproveitamento da bacia do rio Uruguai para a geração de energia elétrica, com a instalação de 22 usinas hidrelétricas, começou uma grande mobilização de parte dos moradores da área rural, em especial de nãoproprietários, como agregados, meeiros e trabalhadores
rurais, com apoio das Igrejas Católica e Luterana da região. Em uma reunião realizada em abril de 1979, em Concórdia, foi criada a Comissão Regional de Atingidos por Barragens (Crab), entidade que passou a representar uma parcela da população rural que seria atingida pelos empreendimentos. Como os estudos
apontavam as usinas de Itá e Machadinho como as primeiras a serem construídas, a Crab se estruturou
nestas regiões. A convivência entre as duas partes foi difícil em muitos momentos, com inúmeros casos de invasões, retenções de técnicos que estavam negociando, e outras formas de pressão, visando o atendimento de reivindicações. As negociações entre os lados evoluíram, apesar de diversos confrontos, chegando à celebração de um acordo em outubro de 1987 que, entre outros pontos, estabeleceu as formas de remanejamento das populações rurais atingidas pela barragem de Itá. Este acordo foi inovador e se constituiu num marco na forma de tratar as questões sociais de um grande empreendimento hidrelétrico.

O reservatório formado atingiu 3.219 propriedades rurais numa área de mais de 10 mil hectares. Segundo levantamento feito entre os anos de 1986 e 1988, cerca de 40% das famílias eram formadas por trabalhadores rurais sem-terra, mas com vínculos com a produção agrícola, seja como arrendatários, posseiros, parceiros, agregados ou filhos de proprietários. O acordo previa que estas famílias não-proprietárias deveriam ser reassentadas em lotes que passariam a ser seus mediante um pagamento simbólico que não ultrapassaria
20% do seu valor de mercado, parcelado em até 20 anos, após três anos de carência.