Uma Nova Vida

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UMA NOVA VIDA

Em 1979, a notícia de que a cidade de Itá seria inundada pela construção de uma usina hidrelétrica pegou os moradores de surpresa, deixando-os assustados e apreensivos num primeiro momento. Informações sobre
a construção de uma barragem na região já circulavam, principalmente em virtude das constantes visitas feitas por técnicos da Eletrosul, mas a dimensão do empreendimento e a inundação da cidade só foram anunciadas numa reunião que diretores da empresa realizaram com a comunidade em novembro daquele ano. A partir
daí foi deflagrado o processo que culminou com a construção de uma nova cidade, inaugurada oficialmente em 1996, quatro quilômetros distante da sede anterior.

A construção de uma nova cidade talvez seja o aspecto mais visível de um extenso trabalho que antecedeu o início do funcionamento da usina, composto por ações desenvolvidas na área atingida pelo reservatório a ser formado no leito do rio Uruguai. Devido ao grande impacto social e ambiental de uma obra desse porte, tornou-se imprescindível a aplicação de programas que minimizassem os problemas causados nas áreas atingidas direta e indiretamente pela formação do lago. Assim, além da relocação da cidade de Itá, foram desenvolvidos 23 programas socioambientais que englobaram trabalhos em diversasáreas, desde a proteção à flora e à fauna, passando pelo controle da qualidade da água, limpeza da área a ser inundada, remanejamento da população rural, relocação de núcleos rurais, resgate cultural e histórico, até a preparação dos municípios para explorar a vocação turística do lago. Os programas foram definidos no Estudo de Impacto Ambiental e Relatório do Impacto Ambiental (EIA-Rima), desenvolvidos no Projeto Básico Ambiental, e estão sendo implantados desde 1990. Muitos foram concluídos, outros estão em fase final de execução e alguns são de caráter permanente.

Porém, primeiramente, os esforços se concentraram na questão da transferência da cidade, resultando em inúmeras discussões entre a comunidade, governos e Eletrosul, além de estudos técnicos. Após a divulgação da notícia, a prefeitura organizou a Comissão de Relocação, formada por representantes da sociedade. Juntamente com representantes dos dois Estados envolvidos, da Sudesul e de técnicos da empresa, a comissão
participou do Grupo Operacional para Relocação de Itá (Gori), elaborando o Plano de Mudança. O próximo passo foi a escolha do local para abrigar a nova cidade. Os técnicos apresentaram três alternativas e a comunidade optou por uma área em um espigão vizinho à cidade velha, conhecido como Altos de Itá. Após a
escolha do sítio foram elaborados, simultaneamente, o Plano Urbano, o Plano de Mudança e os projetos arquitetônicos dos equipamentos comunitários. Paralelamente aconteciam as negociações com os proprietários.

Propriedade rural na área inundada pelo reservatório.

Propriedade rural na área inundada pelo reservatório.

Nesta etapa entrou em campo aequipe de arquitetos. Duas questões básicas orientaram a elaboração do plano urbano e dos projetos arquitetônicos da nova cidade: o respeito à cultura e à tradição, e o envolvimento da população no desenvolvimento do próprio projeto. Nesse sentido, as propostas procuraram
resgatar as características das construções locais em termos de linguagem e organização espacial, atendendo aos usos e costumes dos usuários, mas sem deixarem de ser tecnológica e conceitualmente contemporâneas. De início, havia uma mudança em relação ao espaço, pois a cidade velha estava situada num vale que a protegia de ventos e geadas, e as casas, em boa parte, eram próximas umas das outras. No sítio escolhido, as características eram diferentes: o topo de um morro com forma alongada e linear. Quando começaram os estudos, em 1981, a cidade de Itá possuía em torno de 940 moradores, distribuídos em 200 famílias.